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A Cidade e sua Vivência
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Monthly Archives: setembro 2009

Chuva precoce não engana cigarra, mas melhora o clima

Este ano as chuvas chegaram mais cedo. E chegaram pesadas. Intensas. Chegaram a 72,5 mm. O único ano, desde a inauguração, que teve precipitação maior que 2009 foi o de 1984, com 93,3 mm acumulados. Nos demais não ocorreu nada parecido. Normalmente elas são significativas em outubro. Em agosto é aquela chuvinha esporádica, bem mais para o final do mês, ainda correndo o risco de nem sempre acontecer porque o mês de agosto, em Brasília é um mês de seca. A média das precipitações atmosféricas apuradas, de 1961 até 2008, foi de apenas 13 mm. Muito pouco. Dados estatísticos apuraram que dos 49 anos de Brasília, 22 anos não contaram com uma única gota de chuva na cidade. Zero mm de precipitação, portanto. Em outros oito anos choveu abaixo da média de 13 mm.

A umidade relativa na última sexta-feira de julho estava em 12%, indicando pouca ou nenhuma perspectiva de chuva. Foi uma semana de alerta, pois a umidade relativa do ar oscilou entre 12 e 14%. Níveis limite para a saúde de acordo com a Organização Mundial de Saúde – OMS. Os comentários em 31 de Julho não eram nada otimistas com relação a chuvas em agosto.

Mas a chuva antecipou a primavera. A paisagem mudou, os gramados ficaram imediatamente verdes. As arvores recobraram suas folhas, especialmente os ipês, caducifólios, em que brotaram folhas de um verde claro e intenso. Mas a antecipação das chuvas não mobilizou a todos. Ainda que a terra tenha ficado úmida e macia em agosto, desconfiadas, as cigarras só apareceram depois da entrada oficial da primavera. Mesmo assim, ainda estão tímidas.

A falta de chuvas e a baixa umidade incomodavam muito o ex-governador José Aparecido. Ele chegou a promover estudos para utilização de aviões que pulverizariam as nuvens com iodeto de prata e fariam chover durante o período de mais baixa umidade. Ele havia tomado conhecimento de experiências no nordeste do Brasil. Contudo, a técnica era pouco conhecida.

Hoje o seu propósito seria exeqüível. Um grupo de pesquisadores composto por Taqueshi Imai (engenheiro mecânico e mestrando em física da atmosfera), Inácio Malmonge Martins (doutor em física e professor do Ita e da Universidade de Taubaté), Majory Imai (administradora de empresas) e Ricardo Imai (estudante de engenharia), criaram uma empresa com o propósito de fazer chover, literalmente.

Eles utilizam a técnica de semear “gotas coletoras” de água pura de tamanho controlado que aglutinam as gotículas de nuvem num processo de colisão e coalescência formando gotas de chuvas. As nuvens crescem rapidamente com aumento significativo das precipitações no local de operação do avião (revista Scientific American, setembro 2009 p. 74-79).

Esses pesquisadores têm prestado serviço para a Sabesp provocando chuvas sobre o sistema Cantareira que abastece São Paulo. Eles comprovaram que as Regiões Centro-Oeste e Nordeste possuem nuvens adequadas para semeadura em períodos cíclicos, ou seja, poderíamos ter chuva induzidas em Brasília reduzindo o período de seca e amenizando as condições climáticas.

“Vem pra vida vem viver”

A cada dia aumenta a consciência da necessidade de inclusão de uma parcela significativa da população: aqueles que são portadores de necessidades especiais. Os editais de concurso público, por exemplo, reservam-lhes uma parcela das vagas. As Universidades Federais também destinam parte das vagas nos cursos para garantir sua inclusão social. As empresas são obrigadas a contratar parte de seus trabalhadores entre aqueles que até um tempo atrás eram preteridos.

Há um esforço da sociedade para que essa parcela da população que soma aproximadamente dez por cento do total, tenha oportunidade de se realizar como pessoa e contribuir para o desenvolvimento do país como qualquer outro cidadão. Entretanto, ainda são identificadas algumas áreas que teimam em não se adaptarem para facilitar a vida destas pessoas. Um dos casos é o transporte público onde os veículos não são adaptados para permitir o acesso de pessoas com dificuldade de locomoção.

O governo atual do DF divulgou que dez por cento da frota de ônibus seria adaptada para permitir o acesso dos portadores de necessidades especiais. Convenhamos que este percentual citado representa quase nada para o universo existente nesta qualificação. É difícil para as pessoas que se movem sem dificuldade chegar ao trabalho, à escola ou ao lazer utilizando o transporte público. O metrô e os ônibus rodam abarrotados e, em geral, esses últimos não têm regularidade. Imaginemos uma pessoa em cadeira de rodas tentando chegar ao trabalho e tendo que esperar que passe um ônibus com o mecanismo de acessibilidade. Essa pessoa dificilmente chegará a tempo no trabalho, na escola ou em alguma outra atividade.

A dificuldade se repete quando essa pessoa tenta circular pela cidade. São barreiras de toda ordem: falta de rampas, escadas construídas nas calçadas, excessos de mobiliário público. Placas, lixeiras, postes, avisos, etc, concorrem com o usuário das calçadas. Quando esse usuário adentra a uma loja, restaurante, escola, academia, casa de espetáculo ele se depara com a total inadequação para sua mobilidade naquele ambiente. Variações de pisos, escadas, espaços exíguos de circulação e anteparos de difícil superação. Os banheiros dependem sempre de escada.

Como se vê nem tudo é indiferença. Há pessoas que se importam e se mobilizam para apoiar e ajudar a superar essas limitações. É o caso da organização “VEM PRA VIDA VEM VIVER” de iniciativa de Ronald de Carvalho. Ela tem por objetivo proporcionar diversão e entretenimento ás pessoas com deficiência. A proposta é permitir seu acesso a bares, restaurantes, cinemas, boates, teatros e casas de shows. A proposta é simples como toda boa idéia. Os proprietários de estabelecimentos serão convidados a adequar seus espaços e atendimentos para facilitar o acesso, além de divulgar essa acessibilidade no site www.vempravidavemviver.com.br. O site será inaugurado no próximo 1º de outubro e pretende divulgar esses estabelecimentos entre as pessoas com necessidades especiais. Considero a iniciativa da maior importância para Brasília, um sinal de evolução nas relações entre seus moradores.

Agradeço a Lina e Natacha, duas empenhadas no assunto, pela informação.

O lixão e as condições de vida de nossos intocáveis

Fotos publicadas nos últimos dias mostraram homens, mulheres e até crianças trabalhando no lixão da Estrutural. As fotos causaram repugnância e desconforto pela insalubridade e pela degradante condição de trabalho daquelas pessoas. Tudo tão próximo do centro do poder.

Reações diversas foram captadas. Os moradores das cercanias viram naquela aglomeração uma oportunidade de fazer algum dinheiro com o comércio de alimentos para os catadores de material reciclável. Mas a população, em geral, sente-se impossibilitada de intervir neste processo e o vê como uma responsabilidade do poder público, a quem cabe manter as cidades saneadas, promovendo a coleta e a disposição final dos resíduos sólidos.

Muito pouco se tem feito a respeito da melhoria dos processos de coleta e disposição final. Ainda dependemos de caminhões que passam com certa regularidade, coletam os resíduos e os lançam em áreas distantes dos centros urbanos e de preferência de difícil acesso. Longe dos olhos das pessoas.

O lixo tomou importância econômica pelo alto índice de reciclagem alcançado pelo país. É penoso reconhecer que esses ganhos econômicos se fazem a custa de trabalho subumano a que são submetidas estas populações que à falta de outras oportunidades se vêm obrigadas a trabalhar em tais condições para obter o seu sustento.

Brasília já empreendeu algumas tentativas de tratar o lixo de forma a reduzir o seu manuseio. Os primeiros prédios eram dotados de dutos interligados a alçapões em cada apartamento. Estes alçapões permitiam o lançamento direto do lixo a partir do apartamento, o qual caia diretamente no compartimento a ele destinado no térreo.

O impacto dos sacos na lixeira do térreo e o lançamento de alimentos sem acondicionamento correto transformavam aqueles dutos em depósito de alimentos para insetos e roedores. Isso levou ao abandono daquele modo de construir e ao fechamento dos alçapões nos prédios antigos que os continham.

A primeira usina de tratamento construída ali na Avenida das Nações tinha uma rampa lançadora dos sólidos. Esta rampa deveria lançar mais longe os materiais de maior densidade, como o ferro e outros metais, um pouco menos longe o vidro e assim separaria os resíduos permitindo o seu uso em reciclagem. O processo não era tão eficiente e na próxima estação de tratamento construída na Cinelândia não havia nada parecido. Tudo é lançado em uma vala de concreto e depois içado por uma grua que leva os resíduos a esteiras onde se dá a separação dos materiais recicláveis. Há um intensivo contato com os resíduos e a usina tem reduzida capacidade de processamento.

Sobram então os lixões com a degradação das pessoas e do meio ambiente! Mas o que resta além da indignação da população com as condições de trabalho dessas pessoas?

Não custa repetir que a população de Brasília, quando quer e tem apoio do poder público pode fazer muito – vide o caso das faixas de pedestres. Neste caso pode-se praticamente retirar todos aqueles que trabalham no lixão e dar-lhes a possibilidade de trabalhar condignamente. O acondicionamento do lixo residencial, dos escritórios, do comércio e da indústria em recipientes separados: papéis, metais, plásticos, vidros, químicos e orgânicos permitiria que aqueles que trabalham no lixão o recolhessem sem necessidades de se lançarem nos containeres ou que os esperassem no lixão para os separar.

A coleta seletiva é uma promessa sempre adiada. Ela poderá redimir aqueles compatriotas e reduzir a agressão ao meio ambiente.