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A Cidade e sua Vivência
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Monthly Archives: Janeiro 2009

Pardal: o xodó do Flor da Mata

Pardal o xodó do Flor da Mata

Uma tarde, ao tomar chá em uma das mesas da Confeitaria “Flor da Mata”, na SCL 307 Norte, um pardal entrou e pousou no espaldar de uma cadeira ao lado.

Não apresentava receio ou sobressalto. Sabia que podia estar ali. Ficou esperando pacientemente. Depois de encará-lo e tentar entender o que se passava pus à mesa três pedaços de esfirra. Ele avaliou, pegou o pedaço maior e se foi. Dali a pouco voltou e pegou outro e depois o último. Dois dias depois voltei ao local no mesmo horário. Sentei-me a mesma mesa. Logo após, ele chegou e novamente pousou em uma cadeira ao lado e ficou aguardando como se eu já devesse saber dos costumes. Resolvi inovar oferecendo-lhe um pedaço de pão na ponta dos dedos. Ele não se fez de rogado; bicou firmemente, voou e levou o alimento para fora, presumidamente em direção ao ninho.

Quem aprecia um chá, café ou outras delicias acompanhado por bolo, pão de queijo, esfirra, brevidade, broa de milho, quiche, brioche ou outros quitutes encontra uma variedade de casas distribuídas pela cidade.

“Flor da Mata”, ambiente tão bucólico como o nome da casa, inclui-se entre aqueles com propostas para nichos específicos e que se aproxima ao paladar mineiro.

Lá, entre os habitués do local há um visitante que freqüenta, com sua família, há pelo menos três anos. Trata-se de um pardal, identificado pela peninha da asa levantada, e sua companheira, um pouco menor, que diariamente recebem as honras e atenções de todos.

No inicio do relacionamento destes pássaros com o estabelecimento, eles eram ressabiados, ariscos e temerosos. Com o passar do tempo já transitavam entre os fregueses, com desenvoltura. Dos muitos pardais que se aproximaram, somente este casal permaneceu quando foram afugentados. Todos eles se foram, exceto o nosso personagem e a sua companheira, que se apropriaram como donos do pedaço.

O café da manhã já é servido em companhia dos pardais que são os primeiros a entrar na loja em busca de alimentos. Eles ficam ali a esperar as pessoas habituais e conhecidas que lhes dão comida. Em certas ocasiões, em especial quando o recolhido é pouco, eles se atrevem a buscar mais. Os pardais estão no Brasil há pelo menos cem anos. São encontrados no campo e na cidade. Estão de Norte a Sul. Vivem cerca de trinta anos. Foram introduzidos para o combate a endemias, pois consomem insetos além de sementes. Eles são oriundos do Oriente Médio e teriam surgido há mais de dois milhões de anos.

Vêm as chuvas, as cigarras passam e os buracos ficam

O verão traz as chuvas que amaciam o solo. A terra macia liberta as cigarras que fazem o coro do clima ameno no planalto. O solo macio traz também os buracos nas vias. Começam as chuvas e eles aparecem. Na mesma época em que aparecem as cigarras. Eles aparecem em outras épocas. Mas o normal é vê-los por todos os lados nesta estação. Eles ocorrem predominantemente nas vias de maior movimento, aquelas onde circulam veículos pesados, mas freqüentam também as vias onde a coleta de águas pluviais ainda não chegou.

Eles, em geral, mostram no principio uma pequena depressão com linhas longitudinais, vermelhas. Em pouco tempo soltam as partes pretas do concreto asfáltico e apresentam o vermelho do cascalho da base. A maioria é circular, mas eles podem ser longitudinais, transversais e em alguns casos, os mais atrevidos, tomam a via toda.

A operação tapa-buracos inicia-se logo que eles começar a incomodar. O corriqueiro e usual é um caminhão com alguns homens equipados de picaretas, rodos, enxadas e pás. Esse é o modo mais rápido de dar resposta aos clamores dos motoristas. Com as picaretas eles cavam o material que está começando a se soltar, dão certa regularidade ao buraco e então lançam a massa asfáltica para corrigi-lo. Essa massa é feita com agregado fino, areia e brita, para facilitar o manuseio. A quantidade de material é definida na “abistunta”, no “olhometro”, e ai pode resultar uma pequena depressão ou um pequeno “murundu”. Dessa forma o buraco garante sua presença na via e será sempre notado.

Quando o buraco é maior o material pode ceder á pressão dos pneus e escoar para um lado ou para outro. Com o passar do tempo a via fica toda irregular e os carros rodam como se estivessem em estrada de terra, trepidando.

O conserto, em outras ocasiões, é um pouco melhor. Isso acontece quando o buraco cresce muito. Neste caso poderá aparecer uma turma equipada com rolo compressor, compactador de mão para a base, aspersor de ligante betuminoso e outros equipamentos. O pavimento é cortado com máquina, a base é compactada e o material é lançado com maior cuidado e depois compactado com o rolo. O resultado é bem melhor apesar de o calculo do volume do material ainda ficar a depender da experiência do profissional. Também neste caso haverá trepidação ainda que menor. Com o tempo a única maneira de remover os buracos da lembrança é fazer o recapeamento de toda a via.

Esse processo de tapar buracos é estressante e custoso, tanto para os cofres públicos como para os proprietários de veículos (suspensão, rodas, pneus etc.), repete-se todos os anos. O recapeamento ocorre com certa regularidade nas vias de trafego intenso, como aquelas onde trafegam os ônibus. Caso exemplar é o piso superior a Plataforma da Rodoviária. De tempos em tempos o piso é refeito. A última reforma foi feita pelas metades. Parte do pavimento foi executada em concreto e as outras ficaram com cobertura asfáltica. As partes com cobertura asfáltica já apresentaram inúmeros buracos e toda ela impõe trepidação. A parte pavimentada com concreto em contraste mantém-se intacta.

Várias experiências, de melhoria do manejo e implantação de vias foram feitas com êxito em momentos anteriores. É o caso da maquina de remover a cobertura asfáltica permitindo a regularização do pavimento antes do recapeamento. Lembro de outro caso, na pista que liga o Setor Policial Sul e a Estrada Parque Industrias Gráficas, quando foi adicionado cimento à laterita usada na base de modo a aumentar sua resistência á compressão. Esse trecho implantado nos anos 70 resiste até hoje.
A vias por onde trafegam os veículos de transporte coletivo deveriam receber pavimento de concreto. Não se trata de inovação. A pista que passa sob a Rodoviária –buraco do tatu – tem mais que 50 anos e se mantém em condições de uso. A pista que cruza o Eixo Monumental, em trincheira, ao lado da Catedral também tem pavimento de concreto. Está ali há 30 anos e está em boas condições. Quanto à operação tapa-buracos poder-se-ia obter ou produzir uma maquina que o fizesse mantendo a s condições originais da via. Tecnologia há e vontade de fazer o melhor, também.

As cigarras, bom elas cantam, se reproduzem e voltam para a terra. Já os buracos, permanecem enquanto chover. É uma luta insana: tapa aqui aparece ali e assim vai de outubro até maio.