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A Cidade e sua Vivência
Ambiência Brasília

Eterna primavera

Fala-se muito do patrimônio arquitetônico e urbanístico de Brasília. Em muitas cidades existem obras modernas ou antigas de qualidade, conjuntos de razoável extensão, mas nenhum deles tão amplos como Brasília. A quantidade e a qualidade das edificações e o conjunto por elas formado dão à cidade a condição de obra única.

Há outro patrimônio de importância, principalmente para os que aqui residem. Trata-se da vegetação composta por árvores de diversos tamanhos, idades, cores, origens e que nos fornecem sombra, frutos e flores durante o ano. Dificilmente alguém dirá que as árvores não são necessárias ou descartáveis.

É bem verdade que temos perdido parte significativa desta biomassa. A Avenida W3 Sul é uma das mais prejudicadas. Em vários trechos as árvores foram arrancadas e não há vestígio de que tenham sido substituídas. Dentro das quadras elas são removidas furtivamente e nada é reposto. Na SCLN 306, ao lado do bloco B vários fícus foram derrubados para construção de uma rampa de acesso a um mercado. As árvores sobre as estações do metrô na Asa Sul foram removidas e nada foi replantado, apesar das enfáticas promessas de que isso seria feito. É tempo de começar a repor esse patrimônio perdido!

Chamo a atenção para a temporada das flores que se inicia com as Paineiras. As Paineiras começam a colorir a cidade em março, algumas até antes, e vão até maio. Há vários pontos de concentração e é deslumbrante vê-las todas tomadas pelas flores de cor rosa. Logo após é a vez do Ipê Roxo. Seu período é curto e vai de junho a agosto. O período das flores dos Ipês se estende por um largo período: logo após o Ipê Roxo vem o Ipê Amarelo que floresce a partir do final de junho até setembro, seguido do Ipê Branco, e depois do Ipê Rosa que termina a temporada a partir do final de julho ate os fins de setembro. Os ipês têm significativa presença no Eixo Rodoviário, tanto norte quanto sul, a exceção dos brancos que ficam escondidinhos na pista rebaixada que liga a L2 Norte a L2 Sul, ao lado da Catedral. Poucos se dão conta de sua florada.

Ao final do ano temos a exuberância dos flamboyants com o seu vermelho vivo. Os flamboyants ocorrem de forma esparsa e têm uma significativa concentração nas quadras 700 da Asa Sul. São dignos de nota os guapuruvus, as cássias e tantas outras espécies de árvores nativas que oferecem flores de texturas, cores e formas de rara beleza.

A floração das cerejeiras é cultuada no Japão e atrai a atenção de todo o mundo. Nós temos arvores ornamentais em condições de oferecer uma cidade inteira florida durante todo o ano. Bastaria identificar as espécies pela ordem de florada e distribuí-las de forma heterogênea, adensando a vegetação existente e compondo com suas cores e formas, quadros de beleza incomum em um jardim permanentemente florido.

O Plano Diretor de Arborização de Brasília poderia ser revisto de modo a nos dar esse presente que iria encantar a todos. Uma cidade assim, florida, teria apelo turístico para ser visitada por admiradores do mundo inteiro! E nós viveríamos numa eterna primavera!

Minha Casa Minha Vida

Juscelino Kubitscheck construiu Brasília com o propósito de interiorizar a população brasileira. E funcionou. Naquele imenso deserto no Planalto Central, emergiu não só a Capital Federal e seu Entorno, mas também um sem número de cidades que foram criadas ou se desenvolveram a partir da atração que Brasília exerceu nestes últimos cinqüenta anos.

Quem casa quer casa.

Os que vieram para Brasília, em especial os trabalhadores braçais, pequenos comerciantes e outros prestadores de serviços, enfrentaram e ainda enfrentam a questão da habitação. A oferta aquém da demanda explica os altos aluguéis e os elevados preços dos imóveis e dificulta a aquisição da casa própria, um bem de primeira necessidade.

Não é só aqui.

O Governo Federal nos informa que o déficit de habitação excede a 7 milhões de unidades em todo o país. A oferta de 1 milhão de unidades pelo Programa – Minha Casa Minha Vida – chega a ser modesto diante da realidade, mas é gigantesco diante dos recursos demandados. E não é só o custo das casas. Em muitas localidades as áreas disponíveis não dispõem de infra-estrutura, o que demandará mais recursos. Tarefa para mais de um governo, responsabilidade de toda a sociedade.

Mais vale uma esperança tardia que um desengano cedo.

Muito não serão atendidos mesmo se o programa for um sucesso. Ainda que todas as unidades do programa sejam construídas, menos de 15% das famílias receberão suas casas. O programa está voltado para as regiões metropolitanas e para cidades de mais de 100 mil habitantes preferencialmente. Em condições especiais poderá atender cidades com mais de 50 mil habitantes.

Fluxo migratório.

Sempre que há uma oferta de moradia uma parcela da sociedade argumenta que a sua distribuição aumenta a migração para Brasília. Estudos mostram que a afirmação é parcialmente correta. Muitos para cá vieram em busca de moradia. Por outro lado, estudos também mostram que o programa Bolsa Família contribuiu para fixação de famílias no interior. A oferta de moradia, saneamento, educação e trabalho em pequenas comunidades reduziria o processo de concentração das populações nas grandes metrópoles. Os que aqui vêm o fazem em busca de oportunidades, de educação para os filhos e de melhores condições de vida. Caso houvesse esses benefícios em sua cidade natal, eles iriam preferir viver numa pequena cidade onde o crime não tem a mesma intensidade, o transporte não é tão necessário e o custo de vida é menor. Urbanizar o interior é o remédio para conter o fluxo migratório.

Estacionamento Privatizado em Área Pública é Privilegio

O puxadinho é a praga que corrói o tombamento. Tijolinho aqui, telhinha ali, uma gradezinha acolá e assim a cidade vai se descaracterizando e perdendo a unidade original decorrente do projeto de Lucio Costa.

Mas há outro tipo de puxadinho. São os estacionamentos “privativos”. Em geral eles estão associados a setores do governo. Os exemplos são numerosos. Ali junto aos Anexos do Senado as vias foram fechadas e transformadas em estacionamento privativo. Junto ao Parque da cidade, no Setor de Rádio e TV Sul, uma parte do estacionamento foi fechada com alambrado e transformada em estacionamento privado de um órgão da Justiça.

Mas não são só os estacionamentos lindeiros aos prédios governamentais que estão sujeitos a estas práticas. O Setor Hospitalar Local Sul teve todos os estacionamentos privatizados. Quem vai ao Hospital Santa Lúcia ou a qualquer outro ali situado será obrigado a pagar para estacionar. O mesmo acontece com aqueles que vão ao Hotel Nacional.

O estacionamento do lado norte foi fechado e privatizado. As vagas da galeria foram atribuídas às lojas e a via que segue da galeria no sentido dos Correios foi bloqueada por uma carreta. Estranha solução, mas a carreta lá permanece como se estivesse em carga ou descarga.

Também nos estacionamentos do aeroporto ocorreu a privatização. Não se trata de uma construção feita especialmente para abrigar os veículos. São áreas públicas, bem de uso comum do povo, que foram tomadas e transformadas em fonte de receita para alguém. Assim como este, há muitos outros casos na cidade.

Em algumas cidades o estacionamento, em áreas específicas e de grande afluência de veículos, fica sujeito ao pagamento como forma de controlar a permanência dos veículos e democratizar a utilização das vagas. Nestes casos a receita é revertida ao governo local que a utiliza para levar benefícios à população. Não é o que ocorre nos casos acima descritos. O propósito é de conforto de um grupo em detrimento do público ou simplesmente de apropriação das áreas com o objetivo de enriquecimento ilícito.

É tempo de devolver a cidade ao uso público. O fechamento de áreas para uso privado, alem dos aspectos acima levantados, em muitos casos impede a livre circulação das pessoas. É uma questão de política pública. Inicialmente bastaria cumprir o plano original e coibir estas apropriações. Em seqüência seria desejável abrir discussão com a sociedade, avaliar a conveniência e disciplinar a questão do fechamento de estacionamentos, preferencialmente evitando o privilegio de quem quer que seja.

O Pedinte: Uma questão de gestão do uso da cidade

– Me dá um bolo.

Eles chegaram buscando o olhar de algum freqüentador. Alguém que se dispusesse a notá-los. O pai, de presumidos vinte anos e o filho de uns dois anos, trazido pela mão. Vestiam camiseta e calção encardidos e de cor indefinida. Apresentavam-se também encardidos. Magros, bem magros, de cara chupada.

– Pode pedir no balcão.

O pai achega-se ao balcão, vê todos aqueles bolos de variados sabores, olha para o filho e escolhe um com cobertura de chocolate branco. O menino exclama:

– Bolo pai!

Começa o corre-corre dos atendentes, uns para um lado, outros para outro, atarefados. Afinal, aqueles dois cheiram mal. Passam-se vários minutos. Ninguém os atende. Uma cliente se levanta e insiste no pedido. Outro chama uma atendente, que normalmente é solícita e pede que os atenda. Ela se esquiva alegando que está muito ocupada. Novamente aquela cliente insiste, já existe um clima de mal-estar pela cobrança do atendimento. Finalmente eles são atendidos. O bolo é acondicionado em uma embalagem sugerindo que não podem comê-lo ali. O pai recebe, agradece a que se dispôs a pagar, e sai. O mal-estar permanece. A presença de seres de outro mundo quebrou o encanto da confeitaria.

Os restaurantes, as lanchonetes e estabelecimentos congêneres têm por política coibir a presença de pedintes junto às mesas. As pessoas se sentem incomodadas ao serem abordadas por mendigos ou mesmo por vendedores.

Temos ouvido que não se deve dar esmola. O Governo em vários momentos insistiu e continua a fazê-lo. Mas como negar comida a quem tem fome? Por outro lado não se percebe soluções a partir do Estado para atender aqueles que estão em situação de extrema penúria.

Políticas são divulgadas, campanhas são difundidas, mas as vias continuam cheias de necessitados.

É verdade que observando alguns deles, especialmente junto aos semáforos, identificamos alguns que estão sempre ali. São profissionais da mendicância. Outros se colocam próximos de farmácias com alguma chaga à mostra ou uma receita médica nas mãos. Voltando ao mesmo local lá os encontramos. Há também aqueles que dizem faltar tantos reais para completar a passagem para voltar a sua casa. \alguns se fazem acompanhar da família para emprestar credibilidade ao pleito. Alguns são alienados ou drogados e moram nas ruas.

A falta de políticas públicas abre espaços para outros tipos de situações embaraçosas. São aquelas em que os pedidores se apresentam como representantes de organizações filantrópicas. Ligam para a casa das pessoas e dizem que têm casos de pessoas abandonadas, operadas ou crianças sem família que precisam de um cobertor, de uma prótese ou de uma cesta básica. Em muitos casos trata-se mesmo de espertalhões tirando proveito da caridade e da boa-fé das pessoas.

São muitos os pedintes. Parte problema social, parte formada por espertalhões. Os dois casos merecem a atenção do governo, seja para amparar, seja para reprimir. Não há solução isolada para tal. Não é caso de ação isolada, é uma questão de gestão do uso da cidade. É caso de políticas públicas claras e conseqüentes. Ai então não precisaríamos dar uma esmola ou um pedaço de bolo para uma criança faminta.

Canteiros de Obras: Todo Cuidado é Pouco

O engenheiro chegou à obra e o mestre deu a noticia: “caiu um peão lá do 16º andar e morreu”. O engenheiro perguntou: “onde ele caiu?” O mestre respondeu: “caiu sobre o monte de tijolos”. O engenheiro lamentou: “Poxa, com tanto lugar ele foi cair logo sobre os tijolos que acabaram de chegar!” É conhecida essa história ocorrida na construção do anexo do Congresso Nacional citada à época como o “28” pelo número de pavimentos. O processo da obra era novo, estrutura toda em aço, orgulho da siderúrgica nacional. Os trabalhadores e os engenheiros eram pouco acostumados ao processo construtivo e vez por outra ocorria um acidente.

As técnicas de construção mudaram, mas os canteiros continuam a preocupar. Principalmente agora que se busca a retomada da construção civil. A mídia ocasionalmente veicula noticia em que um operário foi soterrado ou morreu em acidente na construção por queda, por esmagamento, eletrocutado ou pelos inúmeros perigos que a obra impõe.

Os problemas com as construções não se restringem ao seu perímetro. A obra pode lançar poeira, pedaços de materiais diversos, líqüidos e outros nas suas circunvizinhanças pondo em risco as pessoas e o patrimônio, mesmo para aqueles não envolvidos na construção. São as terras das escavações deixadas ao longo das vias por caminhões que as transportam sem acondicionamento correto. Daí a poeira e a lama nas vias. São os caminhões que param nas faixas de rolamento, dificultando o tráfego de pessoas e veículos. As águas servidas lançadas na via, ou o depósito de materiais nas vias etc.

O Código de Edificações do Distrito Federal é pouco detalhado a respeito do canteiro de obras. Ele nivela todas as obras com o mesmo grau de exigência. Seja uma pequena edificação ou um grande edifício as disposições são as mesmas e sempre remetem ao discernimento do licenciador. Não há requisito especifico relacionado à dimensão e complexidade da obra ou quanto sua interação com as demais atividades humanas exercidas no local de construção, vias de intensa movimentação, obra próxima de hospitais e escolas, por exemplo.

A apresentação de projeto de canteiro de obras não é exigido pelo Código de Edificações na lista de documentos para a expedição do Alvará de Construção. Em verdade o Código não dispõe de lista de documentos. Infere-se do disposto na norma que devam ser apresentados os documentos de propriedade do terreno, a regularidade no CREA, os projetos aprovados quando necessário, a cota de soleira, a certidão de alinhamento. O Código trata mais das exceções dos requerimentos para construir.

Os canteiros deveriam prever os locais de carga e descarga dos caminhões evitando a obstrução das vias. Os caminhões deveriam evitar a queda de terra ou outros materiais nas vias. Os fornecedores poderiam preparar as formas, dobrar o aço para o concreto e preparar os materiais de modo que fossem ao canteiro prontos para aplicação. Seria muito proveitoso se as concreteiras fizessem um mutirão para remover das vias o concreto ali lançado por seus caminhões. Seria também desejável que para expedição da carta de habite-se fosse cobrada a recuperação das obras e serviços em área pública danificados durante a execução da obra. Enfim, todo cuidado é pouco para evitar que novos danos venham a ocorrer nas construções fruto de descaso ou negligência.

O Urbanita e as Novas Obras

Quem passou pela W2, altura da 507 Norte provavelmente deu de cara com um operário de capacete e bandeira vermelha interrompendo ou liberando o trafego. Ele não é funcionário do DETRAN ou outro órgão governamental. É operário da obra que ali se realiza e que utiliza a via como extensão do canteiro de obras.

Os caminhões betoneira, os carregados de aço e outros materiais não se constrangem em parar na via para movimentar suas cargas, vez por outra em fila dupla. Cargas perigosas movimentadas sobre a via por braços mecânicos instalados sobre a própria via. Bombas lançadoras de concreto são estacionadas ao lado dos caminhões betoneiras tomando toda a via. Colocam-se cones no acesso as vias e apropriam-se delas.

No inicio das obras, com as escavações, caminhões carregados de terra, incorretamente carregados e cobertos de forma inadequada lançam nas vias grande quantidade de terra. Esse material, alem de empoeirar toda a vizinhança, será carreado para as galerias de águas pluviais, corroborando com outros sólidos que concorrem para sua ineficiência.

Meios fios, calçadas, áreas ajardinadas situadas nas cercanias das obras são danificadas ou destruídas pela movimentação de maquinas, veículos e equipamentos pesados. Também são eventualmente danificadas as pavimentações asfalticas e, como ocorre com os outros nem sempre são recuperadas com esmero. Também podemos notar em vários pontos das vias montes de concreto lançados por caminhões betoneiras. Uns mais altos e extensos outros baixos ou menores mas sempre desconfortáveis para os usuários de veículos.

O Código de Edificações do Distrito Federal é pouco detalhado a respeito do canteiro de obras. Eles trata todas as obras como mesmo grau de exigência. Seja uma pequena edificação ou um grande edifício as disposições são as mesmas e sempre remetem ao discernimento do licenciador. Em verdade a norma em relação aos canteiros não é impositiva, mas autorizativa. Estabelece as condições em que os canteiros são autorizados.

Tampouco há exigência de apresentação de projeto de Canteiro de Obras no Código de Edificações. Em verdade o Código não dispõe de lista de documentos a serem apresentados para obtenção do Alvará de construção. Infere-se do disposto na norma que devam ser apresentados os documentos de propriedade do terreno, a regularidade no CREA,os projetos aprovados, quando necessário, a cota de soleira, a certidão de alinhamento. O Código trata mais das exceções que dos requerimentos para construir.

As relações dos canteiros de obras com os vizinhos ou com os que passam eventualmente podem ensejar acidentes irreparáveis tanto para a vida quanto para o patrimônio. Essas relações poderiam ter tratamento diferenciado pela complexidade da obra e/ou por sua localização – vias de intensa movimentação, obra próxima de hospitais e escolas. Seria também desejável a exigência da apresentação e aprovação do canteiro de obras quando da solicitação do Alvará de Construção. Os caminhões deveriam evitar a queda de terra ou outros materiais nas vias. Seria muito simpático que as concreteiras fizessem um mutirão para remover das vias o concreto ali lançado por seus caminhões. Seria tambem desejavel que para expedição da carta de habite-se fosse cobrada a recuperação das obras e serviços em área publica danificados durante a execução da obra.

A Cidade e os Portadores de Necessidades Especiais

A adequação das cidades aos portadores de necessidades especiais tem sido tema de constantes discussões, dada a carência de estrutura para este segmento. Em Geral a resposta a essa questão tem se traduzido em vagas nos estacionamentos e rampas nos meios-fios e nos acessos ao piso térreo dos edifícios. Medidas apenas para os cadeirantes e com isso, parece resolvido o problema. A sociedade se dá por satisfeita em achar que assim está resolvida a obrigação para com os semelhantes.

Vejamos como o cadeirante se desloca. Caso não tenha carro ele terá que esperar por inúmeros ônibus da mesma linha, até achar um que lhe atenda, pois somente 10% da frota dispõe do mecanismo de elevação da cadeira até o ônibus. Ele chega ao ponto próximo ao destino e poderá se deparar com a calçada inexistente ou descontínua. Chegando a um edifício e havendo acesso por rampa, suponhamos que ele precise usar o banheiro. Grande drama! Os banheiros, na maioria das vezes ficam no subsolo, na sobreloja ou têm um degrau impossível de ser vencido pela cadeira de rodas.

Caso ele precise ir ao médico, ao dentista, ao curso de línguas ou outra atividade que se situe no primeiro ou segundo piso do comércio das entrequadras da Asa Norte, do comércio da W3 ou outros edifícios menores, isso não será possível. Essas construções são licenciadas sem elevadores. A própria aplicação da lei que dispõe sobre a contratação de, no mínimo de 10% de paraplégicos, para as funções que impliquem em estar sentados ficam impossibilitadas de cumprimento nestes edifícios.

Mas não são só os cadeirantes que ficam sem condições de acesso a muitos dos serviços e equipamentos da cidade. Há muitas outras debilidades que dificultam a mobilidade das pessoas. Idosos, pessoas que perderam membros do corpo, ou que sofrem de descontrole motor e ainda os portadores de nanismo, tem as mesmas dificuldades.

Os deficientes visuais têm pouca ou nenhuma ajuda dos equipamentos públicos para auxiliá-los no uso da cidade. Em uma das poucas e boas experiências havia um semáforo com indicação sonora para os pedestres no cruzamento da Avenida W3. O deficiente visual podia fazer a travessia com segurança. Com o tempo o aviso sonoro desapareceu. Pena! O que deveria ser estendido para toda a cidade foi perdido.

Ainda em relação aos semáforos, existem muitos relatos sobre a luta dos daltônicos para que todos os semáforos tivessem a mesma programação com o sinal vermelho em cima, o amarelo no meio e o verde em baixo. Assim, mesmo não distinguindo as cores eles podem saber qual é o sinal de parar e de avançar. Todavia, temos assistido inúmeras experiências com semáforos que não respeitam esta regra. Com isso, os daltônicos ficam ser saber como agir.

O INSS contratou recentemente uma empresa para adequar todas as suas agências às pessoas com necessidades especiais. Desconheço o resultado, mas creio que os concidadãos que vierem a utilizar tais agências terão sua auto-estima elevada ao perceberem que os demais se preocupam com eles. Neste sentido, o governo local bem que poderia dar um exemplo para o Brasil promovendo estudos de adequação plena dos espaços e equipamentos às pessoas que fogem ao padrão médio de ergonomia, de audição, de mobilidade e de visão. A implantação seria o passo seguinte. Os portadores de necessidades especiais agradeceriam.

O Touring é do Conjunto Cultural da República, defende Xavier

Entre os comentários recebidos, merece publicação na íntegra a mensagem de Carlos Xavier, ex-diretor do IPHAN, sobre o artigo publicado nesta coluna: “O Touring é da Cultura, como Brasília é de Lucio Costa”. Entendo ser oportuno compartilhar suas observações que demonstram seu profundo conhecimento sobre o assunto:

Prezado Eustáquio Ferreira,

Meu amigo Emerson Almeida Santos levou ao Faisão Dourado (que frequentamos aos sábados) o Jornal Alô Brasília exclusivamente por conta de sua coluna “O Touring é da Cultura como Brasília e de Lúcio Costa”.

É que ele conhece o relatório que entreguei ao Ministro da Cultura no dia 2 de abril de 2008, como secretário executivo da Comissão Intergovernamental para o Conjunto Cultural da República (tudo que está entre a Rodoviária e a Praça dos Três Poderes), onde apresento proposta idêntica.

Essa comissão foi criada por decreto do GDF e é composta pelos Ministérios da Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia (pelo Governo Federal) e pelas Secretarias de Educação e da Cultura do GDF com o objetivo de definir vocação e modelo de gestão do conjunto da Esplanada.

No relatório defendo a utilização cultural do Monumento nº 1 do Conjunto Cultural, esse prédio que ficou conhecido como ‘Touring’, exatamente para ser fiel ao plano de Lúcio Costa. O Teatro Dulcina e o conjunto Conic (onde estavam os cinemas) completam o setor cultural sul.

Esse prédio lembra a sede da Bienal de São Paulo (década de 50) e tem a mesma cobertura usada por Niemeyer para o PIC – Pampulha Iate Clube de Belo Horizonte (década de 40). Tem sua própria história.

Não sabia da informação que você trouxe na coluna e não estou certo de que “União tenha vendido em leilão o imóvel”, pois o terreno não pode ter destinação comercial alguma e o prédio era explorado pelo Touring como uma concessão de serviço público o que não inclui o terreno onde está construído o prédio. “Quem constrói no terreno alheio perde a propriedade para o dono do terreno” é um princípio do Direito que herdamos do Código Civil Romano, portanto não cabe nenhuma atividade privada, comercial ou de outro ente governamental que não seja a União Federal.

Chamado pelo Ministro José Aparecido (juntamente com Oscar e Burle Marx) Lúcio definiu o que deveria ser construído naquele espaço para completar o Conjunto Cultural (Sul e Norte). A Funarte deveria apresentar uma programação permanente lá, assim como é do governo federal a responsabilidade pelo Museu, Biblioteca e Teatro Nacional.

Ao GDF foi destinado o espaço que vai da Rodoviária à Rodoferroviária; o conjunto que vai da Rodoviária à Praça dos Três Poderes é o espaço mais solene do Plano de Lúcio Costa, a representação da República.

Qualquer intervenção diferente vai prejudicar irrecuperavelmente o Plano.

Seu comentário sobre Relatório do Plano Piloto demonstra, mais uma vez, como era equivocado a praça e monumento propostos recentemente por Oscar Niemeyer a pedido do GDF. A culpa é maior de quem encomendou o projeto e menor do arquiteto centenário.

Parabéns por seu artigo. Attº Carlos Xavier

Porque a moradia no Noroeste é tão cara

Construtores, incorporadores, famílias, governos e instituições financeiras vêem no Setor Noroeste a possibilidade de morar bem, fazer um bom negocio e até ganhar dinheiro.

Ele se propõe a ser a nova área “nobre” de Brasília. Daí a corrida do ouro. Os valores estimados para os preços de venda são assustadoramente quase três vezes maiores que os preços praticados em Águas Claras. Comparados com os preços do mercado imobiliário de Goiânia, em imóveis similares, situados em áreas de alto padrão, os apartamentos do Setor Noroeste custariam quatro vezes mais caros que os equivalentes vendidos naquela cidade.

Em São Paulo, com tradição de produção de apartamentos de qualidade, têm preços diferenciados para alguns bairros, por serem servidos com equipamentos de qualidade, disporem de comercio sofisticado, contarem com eficiente estrutura de transportes e ainda com baixo nível de criminalidade. Nestes bairros os últimos lançamentos de apartamentos apresentam preços de aproximadamente a metade do preço especulado pelos incorporadores de Brasília.

O que poderia estar elevando o preço dos imóveis proposto para o Noroeste? A primeira suspeita poderia ser o custo dos terrenos cobrados pela Terracap, que estabelece o preço de venda com base na área que será construída. Não são computadas as áreas de varanda, de garage de circulação vertical e outras. Sinteticamente, a Terracap estabeleceu para o Noroeste o preço de R$ 1.500,00 aproximados para o metro quadrado. Enfim, o valor estimado pela Terracap pareceu adequado pelos incorporadores. Poder-se-ia dizer que não foge muito dos preços de mercado. Conclui-se que o custo do terreno não explica o alto preço especulado para os imóveis do Setor Noroeste.

A segunda hipótese para o encarecimento dos imóveis do Noroeste recai sobre o custo da construção. O Sindicato da Indústria da Construção Civil – Sinduscon mantêm em todos os estados da federação um índice de apuração do Custo Unitário Básico da Construção – CUB. Pois bem, o custo apurado pelo Sinduscon DF para construção de habitação de alto padrão de oito pavimentos foi de R$ 922,87 no Distrito Federal. Este custo não contempla fundações, projetos, equipamentos e instalações impostos e taxas. Porém estes itens não incluídos não irão onerar o custo do metro quadrado em mais de R$ 200,00. Cabe comentar que o CUB apurado no DF não difere muito daqueles apurados em Goiânia e em São Paulo.

A terceira hipótese de elevação dos custos é representada pela remuneração do construtor e do incorporador. Assim se for remunerado em 30% sobre o custo da construção, a sua remuneração seria de R$ 270,00. A remuneração do incorporador, incluindo os custos financeiros pela aquisição do terreno, estimada em 30% do total do empreendimento seria de R$ 870,00. Com isso teríamos o preço total de R$ 3.800,00 aproximados para o metro quadrado do apartamento.

Pergunta-se, então, de onde vem o preço especulado de R$ 8.000,00? Creio que decorre da pouca oferta de moradia e da demanda estimulada pela política de oferta de credito. Neste caso o equilíbrio só viria com o aumento da oferta e a satisfação parcial ou total da demanda reprimida.

O adeus a Cezenildo, o amigo da Metropolitana

Ontem me ligou o Francelino, companheiro das lidas no Núcleo Bandeirante. Francelino, assim como Cezenildo, foi motorista da Administração Regional e hoje é dono de uma marmoraria ali na Placa da Mercedes, na subida para o Riacho Fundo. Francelino é daquele tipo de pessoa com o qual se pode contar em todas as horas. Calmo, comedido e amigo de todos com os quais convive.

Mas Francelino ligou para dizer que Cezenildo, o Careca, havia morrido na noite anterior e que o enterro seria na manhã seguinte, no Campo da Esperança. Morrera de um enfarto fulminante. Chegara a sua casa, estacionara o carro, acionara o freio de mão e morrera ainda com o cinto de segurança atado. Não houve sofrimento prolongado. Foi encontrado
ali, no banco do carro sem expressão de dor estampada.

Careca gostava de uma cerveja, conversar com os amigos, passar a noite na farra, mas era um homem de família. Tão família que a primeira esposa convivia tranquilamente com ele e com sua segunda esposa com a qual teve seis filhos além dos quatro do primeiro matrimônio. Mas o Careca gostava de uma farra, daquelas farras inocentes de passar a noite bebendo e conversando com os amigos. Talvez seja por isso que os chegados ouviram-no dizer por várias vezes que estava vivendo no lucro, pois tinha aproveitado a vida. Pode-se dizer que era um homem feliz e realizado, apesar das poucas posses.

Enquanto conversávamos, eu reparava no aspecto geral do Campo da Esperança. Trata-se de um dos poucos lugares onde foram mantidas as árvores originais do cerrado. Vi sucupiras, caviúnas, barus e várias outras tais que ali convivem com ciprestes e outras exóticas.

Algumas questões sociais afloraram da visita. A primeira é a questão da privatização do Campo da Esperança e dos demais cemitérios do DF. Quando a administração estava a cargo da Fundação das Pioneiras Sociais, ela o fazia sem fins lucrativos e oferecia seus serviços de modo gratuito àqueles que não podiam pagar. Parece-me não ser desejável que estes serviços fiquem nas mãos da ganância e do lucro, uma vez que o governo destinou as áreas e as equipou para tal fim. O sepultamento deve ser encarado como um serviço público e não como um comercio.

A outra questão é a opção pela cremação. O ex-Governador José Aparecido de Oliveira estabeleceu como um de seus projetos prioritários a instalação de um crematório no Distrito Federal para atender aqueles que preferem tal opção. Não posso precisar se o fracasso do projeto se deu por resistências ou por inépcia daqueles que foram encarregados de implementá-lo. O certo é que aqueles que preferem esta maneira de tratar os restos mortais, são obrigados a procurar os serviços fora do DF.

Por fim, vendo ali a família do Careca reunida em volta do sepulcro, a espera do término dos trabalhos dos pedreiros, veio a minha memória, a lembrança de um pai diante do corpo da filha, pedindo a presença de um Padre que ministrasse os últimos sacramentos e conduzisse a cerimônia, pois “ela neles acreditava e gostaria que assim fosse feito”. Creio ser necessário um ritual tanto na capela quanto ao lado da sepultura que ofereça conforto aos familiares naqueles momentos de dor.