Ao sair de um shopping, passando sobre um daqueles tapetes grandes que ficam nas suas entradas, para evitar que água ou algum material dos sapatos possa sujar o piso dos corredores e lojas, me deparei com uma lagarta nada comum. Tinha cerca de 10 centímetros, listras pretas e amarelas no torso e cabeça vermelha. Aliás, ela parecia ter duas cabeças, pois suas extremidades eram iguais. Sua presença ali era insólita, a lagarta fica apenas onde há comida, folhas verdes.

Espantado com a lagarta, que se movia alheia aos olhares, e maravilhado com sua beleza fui abordado por um homem jovem, com aparência de menos de 30 anos. Ele disse: “Não peço dinheiro, peço que me comprem uma furadeira elétrica, para que eu possa trabalhar. Sou ex-presidiário. Um outro casal vai comprar para mim um kit de ferramentas. Sá me falta a furadeira”

O jovem era branco, muito magro e de estatura mediana. Sua pele e cabelos, sem viço, denunciavam falta de exposição ao sol. Faltavam-lhe dois dentes, o incisivo e o canino inferiores esquerdos. Trajava uma camiseta branca de malha, uma bermuda multicolorida, surrada e chinelas, tipo havaianas, brancas, pequenas para seus pés.

Enquanto ele falava não tirei os olhos da lagarta, temeroso de que alguém pisasse nela. Outros que passavam paravam para vê-la. Tratava-se de uma larva de mariposa da família Sphingidae, da ordem Lepidóptera. A lagarta é bela, a mariposa nem tanto. Só saí de perto quando ela foi colocada em um vaso de plantas ao lado, pelo próprio rapaz, com a ajuda de um jornal.

A maioria dos presos é composta de jovens. Há entre eles aqueles com alguma formação escolar, mas quase todos tem baixa escolaridade. Durante o regime prisional pouco se faz para que a tenham. Mesmo atualmente quando há uma profusão de cursos via internet. Quando têm acesso a cursos a distância os familiares têm que arcar com as mensalidades e custos dos materiais.

O Governo oferece aos jovens cursos profissionalizantes e bolsa-formação. O mesmo poderia ser aplicado ao preso interessado com vistas a sua reinserção social. Preparar o egresso do sistema prisional para o mercado de trabalho e para a vida em sociedade não é privilegio, é construção da paz social. Voltando à lagarta estou certo de que o rapaz a pôs ali para conseguir atenção. Ele está mais para marqueteiro que eletricista.