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A Cidade e sua Vivência
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Monthly Archives: setembro 2016

Patrimônio Ameaçado

O Senhor Antônio, motorista de táxi, que chegou em Brasília em 1970, contou como o casal de portugueses, que ele conduziu em um tour pela cidade, ficou maravilhado. Seu relato denotava paixão pela arquitetura, pelo urbanismo, pela cidade. Ainda assim, ou até mesmo por isso, o Senhor Antônio, fez questão de comentar sobre o abandono da Rodoviária do Plano Piloto.

“A Rodoviária do Plano Piloto foi transformada em uma feira desordenada, com variados tipos de comércio”, diz. Ele explica que originalmente, havia ali restaurantes, lanchonetes, uma delegacia e serviços do governo. “Sua função original foi sobreposta de interesses em prejuízo dos passageiros”. Conclui. “É pena porque a Rodoviária é um dos poucos projetos de Lucio Costa em Brasília”, ressalta.

Anteriormente eu havia comentado de como a calçada e os jardins situados ao longo do prédio da Codeplan foram destruídos para dar lugar a uma cobertura improvisada que serve de abrigo para os veículos de uso dos diretores daquela empresa pública.

Esta semana verifiquei que o palácio do Buriti e do Planalto, no Plano Piloto, estão cercados por grades de meia altura que interferem nos prédios tombados pelo Instituto de Patrimônio Histórico. As cercas interrompem a circulação de pessoas e prejudicam a paisagem.

Os gramados em frente ao Palácio do Buriti foram implantados a partir da cota das calçadas e rampas formando um plano continuo permitindo que o prédio do palácio se mostre no alto do terreno com suas paredes de vidro sombreadas pela larga varanda. Além da cerca, plantaram em volta do Buriti arbustos de baixa altura atrás das cercas.

Em maio de 1989 um ônibus invadiu o Palácio do Planalto. O motorista estaria bêbado. Oscar Niemeyer projetou um espelho d’agua que permite o acesso das pessoas mas impede que veículos entrem no palácio. A visual do edifício foi preservada e o objetivo da segurança mantido. A atual colocação da cerca de aço a sua volta agride a paisagem, impede a circulação das pessoas.

Há um certo relaxamento na preservação de Brasília tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade. Assim como os palácios têm suas cercanias conspurcadas todos os tipos de agressões ao Plano Piloto são tolerados. Tem-se a impressão que a conquista do reconhecimento pela Unesco não é tido como valor pelos administradores da cidade.

Eixo Sul de Transporte Coletivo

A indignação pelos péssimos serviços prestados pela Viação Anapolina foi ao limite em 2013. Enquanto se realizava a Copa das Confederações os usuários passageiros atearam fogo em vários de seus ônibus. Ônibus muito velhos, sempre sujeitos a quebra durante as viagens. Logo após, essa empresa, que atendia a população das Cidades do Entorno ao Sul do Distrito Federal, faliu. Hoje a população é atendida de forma precária por pequenas empresas e por lotações. Levam duas horas para vir ao DF ou voltar para casa.

Havia uma expectativa de que a ANTT fizesse uma nova licitação para substituir a Viação Anapolina. Os usuários daquele serviço lamentam o desinteresse tanto dos municípios da Região, como dos governos do Estado de Goiás e do Distrito Federal.

Em verdade, quando o transporte coletivo atua nos limites do município, cabe àquela localidade regular o transporte, licitar as linhas, estabelecer o valor das passagens e fiscalizar os serviços. O transporte coletivo entre municípios em um mesmo estado é regulado, licitado e fiscalizado pelo governo estadual.

Em conglomerados de municípios, onde ocorre a conurbação, isto é, as áreas urbanas de vários municípios são contínuas, as ruas que passam de um município para outro, os serviços urbanos são usados de forma comum, são criadas as regiões metropolitanas que administram esses serviços.

O caso do Entorno do Distrito Federal não se enquadra em nenhum daqueles, pois são dois governos distintos, o do Goiás e o do DF e vários municípios. Não há uma administração centralizada dos serviços públicos. Assim, cabe ao governo federal, por meio da ANTT, oferecer soluções para os serviços de transportes públicos.

Em 14 de julho de 2016 o Diário Oficial da União publicou a Resolução nº 5.127 que autoriza um grupo de empresas a realizar estudo de viabilidade técnica para subsidiar a outorga de serviço de transporte de passageiros entre o município de Luziânia-GO e Brasília-DF. O prazo para realização dos estudos foi estipulado em 240 dias.

Não resta dúvida de que o transporte por trens é mais eficiente. É assim que as grandes cidades, nos países desenvolvidos, atendem seus passageiros. A linha de trem que já existe permitiria a interligação com o metrô e reduziria o tempo e viagem. Mas isso vai demandar tempo. Enquanto não vem a solução definitiva a ANTT poderia melhorar os serviços com linhas regulares de ônibus.

Notas do IDEB no Distrito Federal

As crianças e jovens, filhos das primeiras famílias de operários e servidores que chegaram a Brasília em 1957, passaram a ser preocupação para o médico Ernesto Silva, Diretor do Departamento de Educação e Difusão Cultural da Nova Capital.

Ernesto Silva buscou no educador Anísio Teixeira, então diretor do INEP, a orientação para o desenvolvimento do sistema escolar da Nova Capital do Brasil. Em 1961 foi publicado na Revista de Estudos Pedagógicos o Plano de Construções Escolares de Brasília.

Aquele Plano, segundo seu autor, Anísio Teixeira, obedecia ao propósito de abrir oportunidade para a Capital Federal oferecer um conjunto de escolas que pudesse constituir exemplo e demonstração para o sistema educacional do país.

Durante os primeiros anos, Brasília, de fato, pôde ser exemplo. Com o passar do tempo e com a pouca vontade política com a educação, com poucos recursos para o ensino, sua qualidade foi caindo, resultado de gestões calamitosas. As escolas que até então eram construídas a partir de projetos de arquitetos renomados, passaram a ser feitas de lata, em total desrespeito às crianças e aos educadores.

As escolas de lata foram substituídas, mas a preocupação com o ensino público foi arrefecendo. A qualidade do ensino decresceu e as escolas públicas foram sendo abandonadas pelas famílias de classe média alta. A exemplo disso, as escolas de Ensino Fundamental do Lago Norte atendem, na quase totalidade, aos moradores do Varjão. Mesmo no Plano Piloto algumas escolas atendem alunos de Cidades Satélites.

A publicação dos índices do IDEB serviu de alerta para a perda de qualidade do ensino que um dia pretendeu ser exemplo para o país. Uma breve olhada na distribuição das notas nos mostra que as escolas do Plano Piloto, melhor equipadas alcançaram os melhores índices. Quanto mais carente de apoio e de recursos é a escola, piores são as suas notas. Essa situação penaliza os jovens da periferia a receberem uma formação desigual.

As notas da escolas particulares, onde se refugiam as famílias de classe média, têm segundo os especialistas, seus índices mascarados. A prova não é feita por todos os alunos, somente por aqueles indicados pelas direções daquelas escolas. Assim, parece que seu rendimento é melhor. A educação de qualidade é pressuposto para o desenvolvimento do país. As escolas não podem ser negligenciadas.

Patrimônio Paisagístico

Um menino aparentando 4 anos, acompanhado de perto pela mãe, brincava no parque infantil que vejo de minha janela. Já não era tão cedo e o sol forte o levou a escolher o aparelho localizado sob a única árvore que naquela hora sombreava parte do parque. A sombra das árvores, que retêm os raios solares e recebe a brisa, oferece temperaturas aprazíveis e sensação de conforto térmico.

As árvores e a vegetação em geral, ao transformar o calor do sol em biomassa reduzem o calor no ambiente. Por outro lado, as áreas sombreadas por árvores frondosas amortecem o impacto das chuvas e reduzem o impacto das gotas no solo, fazendo com que as chuvas escorram devagar evitando as enxurradas que provocam alagamentos, erosões e carreamento de materiais soltos no chão.

Reduzir o número de árvores ou a sua copa contribui para tornar o meio mais agressivo. As podas recomendadas se cingem aos galhos que ameaçam cair, secos, que impedem a circulação de pessoas, de veículos ou os que interferem na sinalização urbana.

Ultimamente temos visto, cada vez mais a manifestação de pessoas que se mostram preocupadas com a forma como o serviço de poda vem sendo feito. Podas radicais, com a erradicação total do espécime, retirada de toda a copa, ou mesmo retirada de galhos que em nada interferem com o ambiente. Muitas daquelas que sofrem o corte de toda a copa acabam por não resistir e morrem.

Hoje é quase impossível encontrar uma única árvore nas áreas públicas do Plano Piloto que não tenha sido vítima de poda radical, poda que altera o formato natural daquela espécie. Quase todas aquelas que ainda persistem apresentam copa alta. Mesmo as mangueiras que tendem a ter copa arredondada ou as jaqueiras que dão os frutos nos troncos e galhos maiores perderam parte significativa de seus galhos e folhas.

A perda do patrimônio paisagístico é visível para quem acompanha o manejo do patrimônio verde constituído das árvores e arbustos da cidade. Fotos de 20 anos passados mostram uma vegetação densa, variada, com cor, formato e altura típica.

Seria de todo interessante proceder um inventário do que resta, identificando a localização, a espécie e o porte, de modo a refazer projeto de paisagismo com ênfase nas frutíferas e ornamentais, nos grandes eixos e nas quadras. Junto com a recomposição estabelecer manual de manejo para evitar que se repita a situação atual.