Skip to Content

A Cidade e sua Vivência
archive

Monthly Archives: Fevereiro 2015

Orquídeas nas Superquadras

Três adultos, com idades próximas aos cinquenta anos, estavam ao pé de uma árvore, munidos de escada, de outros apetrechos e do propósito de ali, naquela árvore, perto do bloco onde moram, fixar duas orquídeas em flor. Prontamente me lembrei de que junto a outro bloco da quadra onde moro há orquídeas em outra árvore e com sinais de estarem fixadas permanentemente. Na comercial da SCLN 112 há duas próximas ao semáforo. Isso leva a crer que não se trata de fato isolado.

Pode-se pensar que as orquídeas venham a sugar a seiva das árvores como os carrapatos e outros parasitas sugam o sangue dos animais. Mas não, as orquídeas são epífitas e como tais apenas se apoiam em suas hospedeiras. Suas raízes se prendem superficialmente. Elas se alimentam de matéria orgânica morta, dos sais minerais trazidos pela poeira e pela chuva.

As orquídeas mais populares são a Cymbidium do gênero Cattleya, a Dendrobium, mais fácil de cuidar e de belas flores e Phalaenopsis que florescem por mais tempo e tem flores lindas. As orquídeas gostam de luz, mas não toleram o sol direto, gostam de locais abertos mas não de muito vento.

Aquele que se propuser a apor uma dela em uma árvore deve tomar o cuidado de, além da insolação e da proteção contra os ventos, levar em conta os rigores de nosso clima. Como as orquídeas se alimentam de nutrientes carregados pelas águas e dependem das chuvas para se hidratarem, é prudente fazer o transplante no início do período chuvoso. Ainda assim seria prudente molhá-las periodicamente por aspersão durante a seca.

Elas devem ser fixadas nos troncos ou galhos das árvores preferencialmente na vertical. Sua fixação, com as raízes envolvendo o tronco, deve ser feita por um tecido ralo, uma gaze, como as de curativos. Junto às raízes deve-se por um substrato que servirá para reter umidade e auxiliar na alimentação da planta. Um bom substrato, segundo a Embrapa, é casca de arroz carbonizada, turfa e vermiculita, entre outros. A fixação com barbantes pode danificar as raízes, bulbos etc.

Não tenho conhecimento de que a fixação de orquídeas às árvores seja parte de um movimento coordenado por alguma entidade organizada. Creio que seja parte de uma onda, dessas que decorrem dos vínculos que se estabelecem entre a cidade e seus habitantes. Uma relação de pertencimento e de apropriação da cidade.

Demolições de Moradias

Desde quinta-feira, 5 de fevereiro, assistimos o drama de 363 famílias moradoras no Sol Nascente, uma ocupação ao Norte da Ceilândia (DF) onde moram outras 120 mil pessoas. A ocupação foi declarada ilegal pela Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis). O governo alega que a ocupação se deu em área destinada a uma bacia do sistema de drenagem pluvial e que por este motivo, entre outros, teria que ser desocupada.

Os que ali edificaram recentemente alegam ter comprado os lotes por valores entre R$ 25 mil e R$ 35 mil. Que durante a construção não receberam qualquer advertência ou fiscalização, que ali investiram seus últimos recursos visto serem todos trabalhadores de pouca renda. Alegaram também que ficariam ao relento pois não tinham para onde ir.

Em princípio, pode-se dizer que as alegações são todas plenas de verdade. Afinal não se constrói uma casa, mesmo que pequena, de uma hora para a outra. São semanas, meses juntando o dinheiro para a compra do material e para pagar os profissionais. Também é verdade que há um sem número de grileiros atuando em todo o Distrito Federal e que vendem os lotes sem pudor àqueles que precisam de uma moradia. São inúmeros os processos junto a Policia Civil contra muitos desses estelionatários.

Sábado último, 7 de fevereiro, um grupo autodenominado Movimento dos trabalhadores sem teto (Mtst ) ocupou várias áreas nas cidades satélites. Uma dela em Taguatinga, ao lado do novo centro administrativo, local sabidamente não passível de fixação. Seu líder teria declarado que o objetivo seria negociar com autoridades a destinação de áreas para assentamento de seus associados.

O Censo do IBGE em 2010 constatou que o índice de moradias próprias no Distrito Federal era o menor do país, apenas 59,07% dos domicílios eram próprios. A média no Brasil era de 73% naquele ano, o que já é um índice baixo e que explica o déficit de moradias da ordem de 5 milhões de unidades.

Esse quadro torna absurda a demolição daquelas 363 casas edificadas em terra pública. O fato de haver projeto de implantar ali uma bacia não pode ser usado como motivo. Custaria bem menos remanejar o projeto, deslocando a Bacia que construir 363 casas, que ao preço das construídas pelo Minha Casa Minha Vida custariam R$ 27,588 milhões ao Programa. O governo deve evitar as invasões e não derrubar casas habitadas, deve fiscalizar as ocupações e ter uma política transparente, que atenda a todos.

Flores do Cerrado

No final dos anos 70 comprei um lote no Lago Norte. A casa foi construída próxima da divisa, de forma a preservar as espécies nativas de cerrado, adultas, ali existentes.

Eram duas canela de ema, duas bacupari e uma barbatimão. As primeiras davam flores únicas, as segundas davam frutos amarelos de sabor doce e acentuado e a última, com poderes cicatrizantes, é conhecida pela qualidade medicinal de sua casca. A casa foi alugada e o inquilino, um engenheiro, as cortou alegando que eram “mato”.

Esse entendimento de que o cerrado ou o “mato” eram coisas de menor importância foi substituído paulatinamente em razão dos estudos das espécies e de sua presença na composição do ecossistema. Ao tempo em que se iniciava o aproveitamento do cerrado como área de expansão da fronteira agrícola o Arquiteto Paulo Magalhães construiu uma casa em Planaltina (Distrito Federal) onde o aço do concreto armado foi substituído pelas fibras de canela de ema.

Hoje há uma consciência bem difundida da importância do bioma do cerrado e da preservação das espécies, da flora e da fauna nele encontradas. Uma de nossas Cidades Satélites leva o nome do lobo Guará. O Pirá Brasilia, um pequeno peixe encontrado no planalto foi por um tempo o animal símbolo de Brasília.

As flores do cerrado são variadas em cores e formas. Umas, como a Calliandra e o Angiquinho são formadas apenas de filamentos de cores fortes. Outras têm a forma de um sino, como a turnera e muitas são formadas por pétalas tendo ao centro os estames e carpelos. Algumas floram o ano todo como a quaresmeira.

A Companhia de Desenvolvimento do Planalto Central – CODEPLAN, durante o Governo de José Aparecido publicou uma bonita coleção de gravuras de flores do cerrado.

O próprio Aparecido havia feito transplantar o buriti que dá nome à praça em frente ao Palácio do mesmo nome e feito gravar em mármore o trecho lírico de Afonso Arinos de Melo Franco sobre o Buriti Perdido.

Os projetos iniciais de arborização da cidade, ainda que, seguindo as orientações de Lucio Costa, foram se adequando às condições locais e incorporando as espécies nativas. Esse movimento de conhecimento de nossa flora e de reconhecimento de sua importância se espalha por todos. André Cirino é um dos artistas plásticos que tem as flores do cerrado como tema de seus trabalhos e que resultam em belíssimos quadros.