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Monthly Archives: agosto 2012

Política Habitacional e Sobrevivência

Mãe de três filhos, morava em uma invasão nas proximidades de seu local de trabalho. Criava as crianças sozinha, o pai ficara no Norte. Fugiram das ameaças que ocorriam quando o marido bebia. Ela entendeu que aqui teriam um futuro melhor.

Seu sonho era conseguir a casa própria. Buscou documentos das escolas, cartões de vacinas que comprovassem o tempo de moradia e inscreveu-se no programa habitacional. A invasão era área de risco e removida. Enfim recebeu seu lote.

O lote ficava há muitos quilômetros do local de trabalho. Tinha que tomar dois ônibus para ir ao trabalho. Não tinha como buscar emprego próximo à nova moradia, pois ali não conhecia ninguém. Enfrentava a escuridão pela falta de iluminação pública.

Passou a dormir no trabalho. Voltava para casa nos finais de semana. Os filhos não se adaptaram às novas escolas. Tempos depois estava de volta ao velho local de moradia. Vendeu a casa.

Governos conservadores tendem a promover a remoção das populações de menor renda para locais distantes. Assim foi feito nos anos 60 no Estado da Guanabara. Tal política impunha aos removidos a perda das relações de trabalho, de acesso a serviços e dos laços familiares e comunitários que permitem o mútuo apoio.

Algumas experiências de fixação de ocupações irregulares foram bem sucedidas no Distrito Federal, tais como Candangolândia, Vila Planalto, Vila Telebrasília, Varjão, Estrutural. As políticas de fixação e as de remoção têm se alternado conforme a visão dos governos.

Ocupações irregulares decorrem, em geral, da falta de políticas de expansão urbana que levem em conta os eixos de transporte de massa, a oferta de serviços públicos, a disponibilização de infraestrutura de energia, saneamento, vias etc. As discussões sobre o PDOT tem se notabilizado mais pela valorização de áreas tornadas urbanas que pela melhoria das condições de vida das populações. Hora de mudar!

Reforma da Rodoviária do Plano Piloto

Foi noticiada a troca das escadas rolantes e dos elevadores da rodoviária do Plano Piloto. Considerando-se o número de pessoas que por ali passam podemos dimensionar a grande relevância desta obra. As escadas rolantes e os elevadores são determinantes para o uso daquele logradouro por pessoas com dificuldade de locomoção.

Aquela rodoviária tem importância na circulação de veículos, pois liga as asas Norte e Sul, pelo buraco de tatu. Liga também o plano local mais elevado, a cidade propriamente, à área monumental, a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes. Enfim, por aquela rodoviária passam ônibus que vão a todos os cantos do Distrito Federal.

Uma reforma plena, digna de seus usuários, não deve se cingir apenas àquelas melhorias. A sinalização no local deixa muito a desejar. Não há sinalização indicativa dos serviços disponíveis. Nos locais de acesso aos ônibus, não há placa de indicação das linhas, dos horários de saída e dos itinerários por onde os ônibus passam.

As lojas e quiosques localizados nas plataformas de embarque dificultam a circulação, prejudicam a formação de filas e impedem a visualização dos pontos de embarque. Os camelôs impedem a passagem das pessoas, reduzem as áreas de circulação. Os meandros e zonas cegas à fiscalização facilitam a presença de pessoas estranhas nas plataformas e reduzem a segurança.

Um espaço bem cuidado leva seus usuários a bem conservá-lo. Quando as pessoas sentem que aqueles que o administram não o valorizam tampouco se sentem na obrigação de mantê-lo. Assim, os banheiros limpos, claros e bem cuidados, as paredes, tetos e mesmo os pisos pintados darão um novo aspecto à rodoviária. Cumpre também retirar tudo aquilo que não tem conexão com a função de embarque. Lojas devem ser apenas aquelas do mezanino e da plataforma superior.

Faculdades e Planejamento Urbano

O número de faculdades cresce no Distrito Federal. Isso fez com que ocupássemos a vanguarda nacional em percentual da população com formação superior. O Distrito Federal, conforme o censo realizado pelo IBGE em 2010, contava com 17,4% da população com idade acima de 10 anos com formação superior. Em segundo lugar vinha São Paulo com 11,6%. A média brasileira era de 8,3%.

Ainda segundo o IBGE, o percentual de graduados cresceu 146% nos últimos 10 anos. Isso é explicado pela expansão do número de matriculas e do aumento da quantidade de faculdades. A UnB tinha no ano 2000 17.123 estudantes. Hoje tem 30.157. Há 20 anos contávamos com 6 instituições particulares, hoje funcionam 83.

A maior concentração de escolas superiores está localizada no Plano Piloto. A maioria nas quadras 700/900 das Asas Norte e Sul. A segunda maior concentração está em Taguatinga. As demais se distribuem pelas demais cidades.

Essa distribuição concorre para a utilização de veiculo de uso individual. As pessoas trabalham e depois vão à faculdade que está em outro local, fora do eixo de transportes coletivos. Quando saem das faculdades já é tarde e a frequência dos ônibus está reduzida aumentando o tempo de viagem.

Quem mora perto de uma faculdade sabe da dificuldade de convivência entre as residências lindeiras e os estabelecimentos de ensino. Os alunos ocupam todas as vagas próximas, aumentam o fluxo de veículos nas vias de acesso às escolas dificultando o acesso às residências e o estacionamento dos veículos dos moradores.

O aumento do número de faculdades é bom para todos. Uma cidade com boa formação produz mais e melhor. Para tanto cabe ao governo oferecer áreas onde elas possam funcionar de forma harmônica com as demais atividades. O ideal seria oferecer espaços junto aos eixos de transporte coletivo. Assim as faculdades seriam mais acessíveis e os alunos poderiam dispensar o veiculo individual.

Morbidade e Economia

Alguém acometido de dor ou mal-estar súbito procurará um pronto-atendimento médico em busca de conforto imediato. Caso não seja recomendada internação, o paciente receberá atendimento na emergência e será orientado a procurar atendimento ambulatorial para identificação de causas e erradicação de possível enfermidade.

A partir daí o paciente terá que se haver com o médico disponível no SUS ou aquele que conste da listagem de credenciados pelo plano de saúde, caso possua um. Para ter atendimento em menor tempo ele terá que procurar uma clinica particular.

O paciente terá grande dificuldade em identificar a especialidade do clinico que poderá tratá-lo. Ele não domina a correlação entre os sintomas e a qualificação do profissional apto a atendê-lo. Tampouco terá como identificar o profissional qualificado, de confiança, senão pela indicação de alguém.

O Plano Geral da Rede Médico-Hospitalar, elaborado em 1959 por Henrique Bandeira de Melo, já previa que o primeiro atendimento seria feito próximo ao local de moradia dos pacientes. Isto levaria à manutenção de prontuário contendo o histórico dos pacientes.

Tal não ocorre na rede pública ou privada. A cada consulta o médico pede uma bateria de exames e começa o atendimento como se fosse o único. Daí ele prescreve diversos medicamentos. Caso os sintomas não desapareçam o paciente irá procurar outros especialistas até que finalmente tenha os sintomas removidos.

A prática de não haver acompanhamento de clinico geral que disponha de histórico do paciente leva ao consumo exagerado de medicamentos. O faturamento da indústria farmacêutica em 2003 foi de US$ 5,6 bilhões contra US$ 14,6 bilhões em 2007. Isso repercute, inclusive, nas nossas contas externas. Em 2011 o Brasil importou mais de 5,8 bilhões de dólares em medicamentos e exportou apenas 1,1 bilhão de dólares. A despersonalização do atendimento de saúde impede a racionalização das ações, a melhoria do atendimento e onera ao Estado e ao paciente.