Skip to Content

archive

Monthly Archives: abril 2009

Eterna primavera

Fala-se muito do patrimônio arquitetônico e urbanístico de Brasília. Em muitas cidades existem obras modernas ou antigas de qualidade, conjuntos de razoável extensão, mas nenhum deles tão amplos como Brasília. A quantidade e a qualidade das edificações e o conjunto por elas formado dão à cidade a condição de obra única.

Há outro patrimônio de importância, principalmente para os que aqui residem. Trata-se da vegetação composta por árvores de diversos tamanhos, idades, cores, origens e que nos fornecem sombra, frutos e flores durante o ano. Dificilmente alguém dirá que as árvores não são necessárias ou descartáveis.

É bem verdade que temos perdido parte significativa desta biomassa. A Avenida W3 Sul é uma das mais prejudicadas. Em vários trechos as árvores foram arrancadas e não há vestígio de que tenham sido substituídas. Dentro das quadras elas são removidas furtivamente e nada é reposto. Na SCLN 306, ao lado do bloco B vários fícus foram derrubados para construção de uma rampa de acesso a um mercado. As árvores sobre as estações do metrô na Asa Sul foram removidas e nada foi replantado, apesar das enfáticas promessas de que isso seria feito. É tempo de começar a repor esse patrimônio perdido!

Chamo a atenção para a temporada das flores que se inicia com as Paineiras. As Paineiras começam a colorir a cidade em março, algumas até antes, e vão até maio. Há vários pontos de concentração e é deslumbrante vê-las todas tomadas pelas flores de cor rosa. Logo após é a vez do Ipê Roxo. Seu período é curto e vai de junho a agosto. O período das flores dos Ipês se estende por um largo período: logo após o Ipê Roxo vem o Ipê Amarelo que floresce a partir do final de junho até setembro, seguido do Ipê Branco, e depois do Ipê Rosa que termina a temporada a partir do final de julho ate os fins de setembro. Os ipês têm significativa presença no Eixo Rodoviário, tanto norte quanto sul, a exceção dos brancos que ficam escondidinhos na pista rebaixada que liga a L2 Norte a L2 Sul, ao lado da Catedral. Poucos se dão conta de sua florada.

Ao final do ano temos a exuberância dos flamboyants com o seu vermelho vivo. Os flamboyants ocorrem de forma esparsa e têm uma significativa concentração nas quadras 700 da Asa Sul. São dignos de nota os guapuruvus, as cássias e tantas outras espécies de árvores nativas que oferecem flores de texturas, cores e formas de rara beleza.

A floração das cerejeiras é cultuada no Japão e atrai a atenção de todo o mundo. Nós temos arvores ornamentais em condições de oferecer uma cidade inteira florida durante todo o ano. Bastaria identificar as espécies pela ordem de florada e distribuí-las de forma heterogênea, adensando a vegetação existente e compondo com suas cores e formas, quadros de beleza incomum em um jardim permanentemente florido.

O Plano Diretor de Arborização de Brasília poderia ser revisto de modo a nos dar esse presente que iria encantar a todos. Uma cidade assim, florida, teria apelo turístico para ser visitada por admiradores do mundo inteiro! E nós viveríamos numa eterna primavera!

Minha Casa Minha Vida

Juscelino Kubitscheck construiu Brasília com o propósito de interiorizar a população brasileira. E funcionou. Naquele imenso deserto no Planalto Central, emergiu não só a Capital Federal e seu Entorno, mas também um sem número de cidades que foram criadas ou se desenvolveram a partir da atração que Brasília exerceu nestes últimos cinqüenta anos.

Quem casa quer casa.

Os que vieram para Brasília, em especial os trabalhadores braçais, pequenos comerciantes e outros prestadores de serviços, enfrentaram e ainda enfrentam a questão da habitação. A oferta aquém da demanda explica os altos aluguéis e os elevados preços dos imóveis e dificulta a aquisição da casa própria, um bem de primeira necessidade.

Não é só aqui.

O Governo Federal nos informa que o déficit de habitação excede a 7 milhões de unidades em todo o país. A oferta de 1 milhão de unidades pelo Programa – Minha Casa Minha Vida – chega a ser modesto diante da realidade, mas é gigantesco diante dos recursos demandados. E não é só o custo das casas. Em muitas localidades as áreas disponíveis não dispõem de infra-estrutura, o que demandará mais recursos. Tarefa para mais de um governo, responsabilidade de toda a sociedade.

Mais vale uma esperança tardia que um desengano cedo.

Muito não serão atendidos mesmo se o programa for um sucesso. Ainda que todas as unidades do programa sejam construídas, menos de 15% das famílias receberão suas casas. O programa está voltado para as regiões metropolitanas e para cidades de mais de 100 mil habitantes preferencialmente. Em condições especiais poderá atender cidades com mais de 50 mil habitantes.

Fluxo migratório.

Sempre que há uma oferta de moradia uma parcela da sociedade argumenta que a sua distribuição aumenta a migração para Brasília. Estudos mostram que a afirmação é parcialmente correta. Muitos para cá vieram em busca de moradia. Por outro lado, estudos também mostram que o programa Bolsa Família contribuiu para fixação de famílias no interior. A oferta de moradia, saneamento, educação e trabalho em pequenas comunidades reduziria o processo de concentração das populações nas grandes metrópoles. Os que aqui vêm o fazem em busca de oportunidades, de educação para os filhos e de melhores condições de vida. Caso houvesse esses benefícios em sua cidade natal, eles iriam preferir viver numa pequena cidade onde o crime não tem a mesma intensidade, o transporte não é tão necessário e o custo de vida é menor. Urbanizar o interior é o remédio para conter o fluxo migratório.

Estacionamento Privatizado em Área Pública é Privilegio

O puxadinho é a praga que corrói o tombamento. Tijolinho aqui, telhinha ali, uma gradezinha acolá e assim a cidade vai se descaracterizando e perdendo a unidade original decorrente do projeto de Lucio Costa.

Mas há outro tipo de puxadinho. São os estacionamentos “privativos”. Em geral eles estão associados a setores do governo. Os exemplos são numerosos. Ali junto aos Anexos do Senado as vias foram fechadas e transformadas em estacionamento privativo. Junto ao Parque da cidade, no Setor de Rádio e TV Sul, uma parte do estacionamento foi fechada com alambrado e transformada em estacionamento privado de um órgão da Justiça.

Mas não são só os estacionamentos lindeiros aos prédios governamentais que estão sujeitos a estas práticas. O Setor Hospitalar Local Sul teve todos os estacionamentos privatizados. Quem vai ao Hospital Santa Lúcia ou a qualquer outro ali situado será obrigado a pagar para estacionar. O mesmo acontece com aqueles que vão ao Hotel Nacional.

O estacionamento do lado norte foi fechado e privatizado. As vagas da galeria foram atribuídas às lojas e a via que segue da galeria no sentido dos Correios foi bloqueada por uma carreta. Estranha solução, mas a carreta lá permanece como se estivesse em carga ou descarga.

Também nos estacionamentos do aeroporto ocorreu a privatização. Não se trata de uma construção feita especialmente para abrigar os veículos. São áreas públicas, bem de uso comum do povo, que foram tomadas e transformadas em fonte de receita para alguém. Assim como este, há muitos outros casos na cidade.

Em algumas cidades o estacionamento, em áreas específicas e de grande afluência de veículos, fica sujeito ao pagamento como forma de controlar a permanência dos veículos e democratizar a utilização das vagas. Nestes casos a receita é revertida ao governo local que a utiliza para levar benefícios à população. Não é o que ocorre nos casos acima descritos. O propósito é de conforto de um grupo em detrimento do público ou simplesmente de apropriação das áreas com o objetivo de enriquecimento ilícito.

É tempo de devolver a cidade ao uso público. O fechamento de áreas para uso privado, alem dos aspectos acima levantados, em muitos casos impede a livre circulação das pessoas. É uma questão de política pública. Inicialmente bastaria cumprir o plano original e coibir estas apropriações. Em seqüência seria desejável abrir discussão com a sociedade, avaliar a conveniência e disciplinar a questão do fechamento de estacionamentos, preferencialmente evitando o privilegio de quem quer que seja.

O Pedinte: Uma questão de gestão do uso da cidade

– Me dá um bolo.

Eles chegaram buscando o olhar de algum freqüentador. Alguém que se dispusesse a notá-los. O pai, de presumidos vinte anos e o filho de uns dois anos, trazido pela mão. Vestiam camiseta e calção encardidos e de cor indefinida. Apresentavam-se também encardidos. Magros, bem magros, de cara chupada.

– Pode pedir no balcão.

O pai achega-se ao balcão, vê todos aqueles bolos de variados sabores, olha para o filho e escolhe um com cobertura de chocolate branco. O menino exclama:

– Bolo pai!

Começa o corre-corre dos atendentes, uns para um lado, outros para outro, atarefados. Afinal, aqueles dois cheiram mal. Passam-se vários minutos. Ninguém os atende. Uma cliente se levanta e insiste no pedido. Outro chama uma atendente, que normalmente é solícita e pede que os atenda. Ela se esquiva alegando que está muito ocupada. Novamente aquela cliente insiste, já existe um clima de mal-estar pela cobrança do atendimento. Finalmente eles são atendidos. O bolo é acondicionado em uma embalagem sugerindo que não podem comê-lo ali. O pai recebe, agradece a que se dispôs a pagar, e sai. O mal-estar permanece. A presença de seres de outro mundo quebrou o encanto da confeitaria.

Os restaurantes, as lanchonetes e estabelecimentos congêneres têm por política coibir a presença de pedintes junto às mesas. As pessoas se sentem incomodadas ao serem abordadas por mendigos ou mesmo por vendedores.

Temos ouvido que não se deve dar esmola. O Governo em vários momentos insistiu e continua a fazê-lo. Mas como negar comida a quem tem fome? Por outro lado não se percebe soluções a partir do Estado para atender aqueles que estão em situação de extrema penúria.

Políticas são divulgadas, campanhas são difundidas, mas as vias continuam cheias de necessitados.

É verdade que observando alguns deles, especialmente junto aos semáforos, identificamos alguns que estão sempre ali. São profissionais da mendicância. Outros se colocam próximos de farmácias com alguma chaga à mostra ou uma receita médica nas mãos. Voltando ao mesmo local lá os encontramos. Há também aqueles que dizem faltar tantos reais para completar a passagem para voltar a sua casa. \alguns se fazem acompanhar da família para emprestar credibilidade ao pleito. Alguns são alienados ou drogados e moram nas ruas.

A falta de políticas públicas abre espaços para outros tipos de situações embaraçosas. São aquelas em que os pedidores se apresentam como representantes de organizações filantrópicas. Ligam para a casa das pessoas e dizem que têm casos de pessoas abandonadas, operadas ou crianças sem família que precisam de um cobertor, de uma prótese ou de uma cesta básica. Em muitos casos trata-se mesmo de espertalhões tirando proveito da caridade e da boa-fé das pessoas.

São muitos os pedintes. Parte problema social, parte formada por espertalhões. Os dois casos merecem a atenção do governo, seja para amparar, seja para reprimir. Não há solução isolada para tal. Não é caso de ação isolada, é uma questão de gestão do uso da cidade. É caso de políticas públicas claras e conseqüentes. Ai então não precisaríamos dar uma esmola ou um pedaço de bolo para uma criança faminta.