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Monthly Archives: dezembro 2008

Brasília aos olhos de quem anda a pé

Vista de cima Brasília é um canteiro verde, especialmente nesta época de chuvas quando a vegetação está em pleno vigor. O traçado ordenado denota a intenção e a vontade de ocupar o solo dando-lhe uso predefinido.

Foto de Augusto Areal

Foto de Augusto Areal

Circulando de automóvel a cidade apresenta-se um pouco diferente. Quem passa pelo Eixo Rodoviário, o Eixão é exuberante por sua vegetação e dimensões. O traçado é suave e a via bem conservada oferece a melhor das impressões a quem aqui chega.

Em outras vias, que não as monumentais, verifica-se, em alguns pontos a pobreza de sua geometria, especialmente as novas, que apresentam ligações com deficiência no encontro de vias, das curvas e de níveis. Também se nota a deterioração de edifícios, por falta de manutenção, com pintura arruinada pelo tempo ou por ação de pichadores. Verifica-se também ocupações e apropriações do espaço público e a edificação dos ”puxadinhos” laterais ou para cima em prejuízo do conjunto representado pelo bloco de edificações. Esse conjunto é que garante a harmonia do aspecto urbano que tanto encanta aqueles que vão a Ouro Preto (Minas Gerais) ou a Amsterdã (Holanda).

Caminhando pela cidade é que se vê a perda de qualidade do conjunto urbano exemplar e modelar, como queria Lucio Costa. Calçadas deterioradas, caminhos sem calçadas, meio-fios arrancados, mato crescido, ocupação por mendigos, equipamentos e instalações quebrados, excesso de quiosques, sinalização deteriorada e outras agressões que baixam a qualidade de vida da cidade.

Vale lembrar que o turista geralmente se desloca a pé. Assim o fazem os europeus e outros povos oriundos dos países ricos que viajam pelo mundo. Eles vêem a cidade com os olhos de pedestres e por certo não devem ter uma boa impressão desta cidade que nós da classe média, que andamos de carro, tanto amamos.

Não se pode dizer que não há uma preocupação da administração com a qualidade dos espaços urbanos. Afinal, os canteiros de flores são refeitos permanentemente. Durante a estação seca eles são regados com caminhões pipa de modo a manter seu verdor. Os gramados são roçados em intervalos regulares.

Contudo o investimento na instituição de turmas de manutenção permanente para cada trecho urbano, com atribuições de fiscalizar, identificar e recuperar os danos impostos ao espaço urbano, cuidando inclusive das instalações de águas pluviais e outros, não elevaria os custos já hoje praticados. Isto melhoraria significativamente a qualidade visual da cidade, patrimônio da humanidade.

Valparaizo e Cidade Ocidental poderiam ter acesso ao metrô

Valparaizo e Cidade Ocidental poderiam ter acesso ao metrô

Daqui a dois anos teremos prontas as estações do metrô na Asa Sul, Guará e Taguatinga. Estão em construção, na Asa Sul, as estações próximas às quadras 102, 104, 106, 110 e 112. O Guará terá uma outra estação ao sul da existente na Feira e em Taguatinga serão terminadas as estações Estrada Parque e Onoyama.

A melhor distribuição das estações promoverá a opção pelo uso do metrô em substituição ao automóvel. Ainda há uma recorrente reclamação de que os trens andam superlotados, mas o Governo já sinalizou com a compra de novos carros o que permitirá transportar um maior numerode pessoas.

Observa-se uma predisposição da população e do mercado imobiliário em favor do metrô. Ocorrem, neste momento, inúmeros lançamentos de prédios em Samambaia tendo como elemento de atração dos clientes a proximidade dos prédios com as estações do metrô. É bom que se diga que o apelo tem sido bem recebido e as vendas tem relativo sucesso. Conclui-se que a população prefere o transporte coletivo ao automóvel quando este transporte é de qualidade.

Também daqui a dois anos deverá estar em operação o Trecho 2 do Sistema de Metrô Leve sobre Trilhos em Brasília. O Trecho 2 ligará o Terminal da Asa Sul, localizado no Setor Policial Sul e o Brasília Shopping. O Sistema de Metrô Leve sobre Trilhos compreende três trechos. O Trecho 3, que ligará o Brasília Shopping ao Terminal da Asa Norte, terá as obras vinte meses após o inicio das obras do Trecho 2, quando aquele estará concluído. O último trecho, o de numero 1, que interligará o Terminal da Asa Sul ao Aeroporto, será iniciado quarenta meses a partir do inicio da obras do Trecho 2, W3 Sul, e logo após a conclusão do trecho 3.

A presença de um transporte de qualidade na W3 Norte e Sul provavelmente revitalizará aquela avenida. Os veículos projetados têm bom aspecto e facilitarão os deslocamentos naquela via. Entretanto, a conclusão das novas estações do Metro e a implantação do Sistema de Metro Leve sobre Trilhos não serão suficientes para reduzir o afluxo de veículos para o Plano Piloto de Brasília.

Muitas comunidades não terão ainda acesso a transporte de massa de qualidade e continuarão a usar o transporte individual. O comprometimento do governo com os projetos em andamento provavelmente não permitirá iniciar outros projetos de envergadura que permitam atender as demais comunidades do DF e Entorno.

Quando foram elaborados os primeiros projetos de metrô para Brasília, lá pelos idos dos anos 70, apreciou-se a possibilidade de integrá-lo com a linha férrea que sai da Estação Rodoferroviária e segue em direção a Valparaizo. Hoje, com mais razão, esta alternativa deve ser avaliada, pois ela passa pela Cidade do Automóvel, Setor de Transporte Rodoviário de Cargas, SAI, Setor de Combustíveis e Inflamáveis, Setor Lucio Costa, Jóquei Clube, Guará I e II, Parque Way, Núcleo Bandeirante, Catetinho, Santa Maria (5 km), Porto Seco, Valparaizo, Cidade Ocidental e Luziânia.

“Transportar gente é melhor que transportar carga pois, não há necessidade de carga e descarga”, disse alguem.

A ferrovia já existe. É de uma empresa que por certo teria interesse em adaptá-la para o transporte de massa. Há possibilidade de integrá-la com o metrô. Para tanto, bastaria construir uma estação no cruzamento das linhas ferrovia e do metrô ali no Guará. Não haveria endividamento do governo, mas sim da empresa proprietária da linha. Essa alternativa poderá reduzir sensivelmente o número de veículos particulares que trafegam no centro de Brasília.

Moradia a preços de matar. Quem poderá pagar?

Morar no Distrito Federal está cada dia mais caro. Morar, trabalhar ou exercer qualquer atividade que exija espaço. Os imóveis são caros e os alugueis também. Mais caros que em outras capitais brasileiras. Há uma relevante discussão em curso a respeito do novo Plano de Organização Territorial do Distrito Federal. Neste Plano estão propostas áreas de expansão urbana destinadas especialmente a habitação.

O preço da habitação tem um forte componente no custo do terreno e o terreno tem um custo elevado no Distrito Federal. Sabe-se que o preço é ditado pelo mercado. Quanto maior a escassez de um bem maior o seu preço no mercado. É de se esperar que as áreas de ocupação antiga ou de alto padrão sejam mais escassas e mais caras. É o caso do Plano Piloto, Lago Sul e Lago Norte e por Último o Setor Sudoeste.

Houve tempo em que a Caixa Econômica Federal estimava o custo do terreno para habitação em até 10% do custo da construção. A última licitação promovida pela Universidade de Brasília, com o propósito de construir apartamentos em parte de suas projeções na Asa Norte, teve como vencedora a oferta de mais de 50% da área construída em pagamento do terreno.

A falta de oferta de moradia para a classe média criou um mercado paralelo suficiente para alimentar a especulação e a grilagem de terras. Em dado momento a ausência de políticas públicas explicitas pareceu funcionar como estimulo a grilagem de terras públicas e a ocupação irregular do solo deixando como legado os incontáveis condomínios implantados com a complacência do poder fiscalizante.

A ocupação irregular se dá quase sempre em desconformidade com a oferta dos serviços públicos, com a disponibilidade de infra-estrutura em especial com a disponibilidade de água e transportes. Ultimamente os grileiros passaram a ocupar áreas sujeitas a erosões e áreas de proteção ambiental com prejuízos irreversíveis.

No caso do Distrito Federal a escassez é, ou espera-se que seja administrada pelo Governo do Distrito Federal. O Governo deveria promover a oferta conforme a necessidade da população. Nos momentos em que se adotou políticas de contenção da expansão populacional, pela redução da oferta de áreas habitacionais ou para outras atividades, ocorreram ocupações as ocupações irregulares. Inicialmente as ocupações se deram pelas populações de baixa renda e posteriormente pela classe média.

O Governo vem oferecendo regularmente imóveis. Avalia-se, pelos altos preços praticados no mercado, em quantidade insuficiente para permitir que a maioria da população tenha acesso a esse bem de primeira necessidade. As últimas licitações de imóveis no DF não tiveram muito sucesso.  A tentativa de venda dos imóveis funcionais do Governo do Distrito Federal e da Universidade de Brasília tiveram resultado menor que 50%. A licitação 13/2008 da Terracap, realizada em novembro, vendeu pouco mais de 30% dos imóveis ofertados.

Caso exemplar é o das projeções que eram da antiga SHIS, localizadas no Guará. O preço mínimo, por projeção, estabelecido no edital de licitação foi de 9 milhões de reais em média. Ninguém fez qualquer proposta, nem para este item nem para outros 70% daqueles ofertados.

Há uma grande expectativa quanto ao inicio das vendas das projeções no Setor Sudoeste. Alguns milhares de novas habitações viriam descomprimir a demanda reprimida. Entretanto, comenta-se que um apartamento de 100 m2 custariam ali 600 mil reais. Supondo que estes apartamentos fossem financiados em 100% de seu valor, para permitir que o servidor público pudesse comprá-lo. Supondo também que o prazo de financiamento fosse de 20 anos e que os juros fossem de 9,5% a.a.. O valor da prestação desse apartamento seria de 7.250 reais sendo 2.500 reais de amortização e 4.750 reais de juros. A isto devem se adicionar os custos de contrato e de seguros.

Que servidor público poderá pagar tal valor? Insisto no servidor público por ser Brasília uma cidade administrativa, cuja função principal é a de conter o Governo Federal. A política de uso da terra deve ter como principal parâmetro o atendimento de seus habitantes e não o lucro momentâneo de “a” ou de “b” seja público ou privado.

A Vila Olímpica Pode Ser Aqui ao Lado

A cada quatro anos renovam-se as esperanças de um melhor desempenho do Brasil nos jogos olímpicos. O país se mobiliza em apoio a seus atletas, mas ao final constatamos que não basta a nossa vontade. O esporte é uma atividade que exige trabalho continuado, com seriedade, infra-estrutura e técnica.

Quando da realização da última olimpíada havia a certeza de alcançarmos as potências olímpicas, afinal havíamos realizado dois anos antes os Jogos Pan-americanos, preparatórios para a Olimpíada. Ao final constatamos que não havíamos melhorado em relação aos demais jogos.

O Governo tem se empenhado em trazer para o Brasil a realização das Olimpíadas de 2016, daqui a oito anos. Os países que sediaram as últimas olimpíadas tiveram bom desempenho e se juntaram ao pelotão dos campeões de medalhas. Fora o manifesto desejo de sediar os jogos, não se tem visto um especial esforço em preparar o país para disputá-los em condições de igualdade com outros países.

Há por parte do governo local a intenção de instalar Vilas Olímpicas em várias localidades do Distrito Federal. Destaco que, em momentos anteriores, Administrações Regionais obtiveram excelentes resultados ao estabelecer convênio com a antiga Fundação Educacional para formarem e treinarem equipes em várias modalidades esportivas, levando-as à elite do esporte do DF e enchendo de orgulho e sentimento de realização uma geração de atletas locais.

Revisitando o Relatório do Plano Piloto, de Lucio Costa, encontramos ao final do Item 16 a seguinte expressão que trata das áreas residenciais:

 

Na confluência das quatro quadras localizou-se a igreja do bairro, e aos fundos dela as escolas secundárias, ao passo que na parte da faixa de serviço fronteira à rodovia se previu o cinema a fim de torná-lo acessível a quem proceda de outros bairros, ficando a extensa área livre intermediária destinada ao clube da juventude, com campo de jogos e recreio (Lucio Costa, 1957).

 

As áreas designadas por Lucio Costa como clube da juventude tornaram-se Clubes de Unidade de Vizinhança. Daqueles propostos pelo urbanista somente o da quadra 109 foi implantado. Há outro na L2 Norte, em área não prevista no plano inicial. Aqui e ali vemos quadras esportivas isoladas e há até uma área onde se pratica o Tai Chi Chuan. A cada conjunto de quatro quadras há uma extensa área destinada a esportes e que não está ocupada. Imaginem estas áreas transformadas em praças esportivas, e oferecendo diversas modalidades de praticas. Não haveria necessidade que cada uma delas contivesse todas as modalidades. O atleta sempre poderia se deslocar até a área próxima onde encontraria o seu esporte predileto.

 

Deve-se, também, levar em conta o conjunto aquático e poliesportivo existente ao lado do autódromo. Ali poderiam ser desenvolvidos os esportes de alto desempenho voltados para competição. Seria desejável estudar a possibilidade de convênios com clubes esportivos que já dispõem de equipamentos e que com o apoio de profissionais poderiam formar uma geração olímpica pronta a bem representar o país.

 

Pode-se fazer ainda duas outras considerações não menos importantes a respeito destas áreas que o gênio de Lucio Costa nos legou. Primeiro a questão da saúde dos moradores das quadras. É sabido que eles têm o hábito de se exercitarem caminhando nas calçadas que as margeiam. A disponibilização de equipamentos apropriados elevaria as condições para as práticas esportivas e conseqüentemente a saúde dos habitantes. A segunda de repercussão no patrimônio de nossa cidade. Não há como evitar que grupos especuladores olhem aquelas áreas com os olhos da cobiça e que já não estejam tentando privatizá-las em proveito próprio.